FESTIVAL: ALVORADA (2021)

O motivo da demora para lançar Alvorada, gravado quase cinco anos atrás, antes de Dilma Rousseff sair do poder, ficou nítido. Só chega agra ao público, tendo sua estreia mundial na programação do festival “É Tudo Verdade”, mas claramente, o longa é fruto de uma equipe que não havia encontrado seu filme em meio a todo material rodado. Hoje, parece um tanto quanto fora de timing o lançamento dele, em pleno 2021, quando absolutamente tudo de ainda pior aconteceu no país, estamos no meio de uma pandemia terrível e mortal, e já vivemos uma outra fase, cuja história contada aqui provavelmente nunca nem tenha tido a intenção de refletir sobre – apesar de ter uma fala em voice-over, jogada de maneira aleatória no início do filme, daquele que viria a ser o 38º Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Ainda assim, é de estarrecer deparar-se com o que resultou de todo esse material gravado, e o filme que ele poderia ter sido, mas nunca é. A reflexão latente é a de que, talvez, essa equipe nunca tenha tido os acessos que poderia ter tido para registrar os últimos dias da presidente Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada. Ou o material bruto era fraco mesmo, ou os diretores e editores do filme deliberadamente escolheram deixar muita coisa, e mais interessante, de fora. De qualquer forma, qualquer uma das duas opções é grave, sobretudo porque não existe como voltar no tempo e registrar melhor o período em questão.

É decepcionante, inclusive, o quanto preferem deixar cenas de Dilma mandando a câmera parar de filmar. A decisão de edição parece querer criar um panorama da personalidade reservada da ex-presidente, mas o resultado em tela, sobretudo porque as imagens se repetem duas, três vezes, sinceramente, não é muito enriquecedor em sua biografia. E também não traz nada de realmente novo sobre ela. Seu perfil foi muito desenhado ao longo dos últimos 15 anos da história política do Brasil, portanto, era de se esperar que um documentário que a acompanha tão de perto – diferentemente dos outros realizados sobre o período, como Excelentíssimos e O Processo – pudesse ter algo um pouco mais original para apresentar. Não é o caso. A despeito de uma cena divertida onde Dilma quase fala mal do Papa Francisco em frente às câmeras, mas lembra que está sendo filmada, e de um outro momento posterior onde ela reflete sobre o papel do diabo na literatura, esse documentário não apresenta nada de muito inédito sobre ela.

Anna Muylaert e Lô Politi, as diretoras, não parecem muito empolgadas com a própria obra, inclusive, dando a impressão de que ele não é o filme que elas pensavam estar fazendo quando tiveram a ideia de filmar os últimos dias de Dilma na residência oficial da Presidência da República. Ainda sobre as escolhas, o longa que escolheram fazer não é sobre Dilma, nem sobre sua saída à força da presidência, mas sobre o local em que ela residiu nesse período. O Palácio do Alvorada, e como ele resiste, se mantém, todos os funcionários que preservam a vida por ali. Não são poucas as cenas de pessoas trabalhando, do dia-a-dia, de manutenções, da cozinha, preparações de jantar, reuniões, e tudo o mais. Apesar disso, Alvorada retrata bem o dia-a-dia, mas erra ao não ambientar o público das instalações, tornando todas essas cenas extremamente banais. Nunca, sequer, somos apresentados propriamente ao espaço físico, o que é espantoso, já que, por incrível que pareça, há um número imenso de cenas de transição que a montagem escolhe colocar entre as sequências importantes.

Ainda assim, o documentário cria um panorama muito eficiente da importância daquele reduto para os últimos dias de Dilma Rousseff enquanto Presidente da República. Ao passo que absolutamente toda a Esplanada dos Ministérios, Palácio do Planalto, Câmara, Senado, Supremo Tribunal Federal, Advocacia Geral da União, Ministério Público, enfim, tudo ao redor, era governado e dominado pelos seus algozes e seus novos conchavos para a montagem do governo que estava começando, o Palácio da Alvorada era o único e último local em que Dilma ainda era a Presidente em exercício. E a vida continuava, tinha que continuar. Mesmo com o caos que estava acontecendo ao redor, e em todo o Brasil, mesmo no momento em que Dilma vai ao Senado depor em seu próprio processo de impeachment, mesmo quando a deposição é concretizada e os senadores adentram o local para notificar Dilma oficialmente, o Alvorada não deixa de existir, e a vida ali precisava continuar tranquilamente. Com funcionários, com tudo, numa letargia serena e bem inusitada. E é bonito como isso fica representado na maneira com que o filme se encerra: agora, naquele local que não mais continha a presidente que vivia ali, as funcionárias que precisam continuar o trabalho param por um momento para tirar foto sentada na cadeira que até horas atrás era a cadeira de Dilma. À sua maneira, bastante simbólico.

★★★★★★✩✩✩✩

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